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Manhã Imersa



Seguimos de carro pelo interior, era um dos últimos dias daquele verão, depois de deixar a minha mãe na estação de comboios para regressar a Lisboa. Não me recordo o motivo pelo qual fiquei com o meu pai sozinho naqueles dias de fim de verão. Passados 27 anos, hoje, considero que há um rio muito importante a atravessar e que é fundamental para se conhecer profundamente outra pessoa. Na sua infância, juventude. Foi uma viajem espontânea à alvorada do meu pai que me faz compreender hoje quem sou.
Depois de almoçar e garantir que a minha mãe estava de caminho para a nossa casa em Lisboa, o meu pai perguntou-me se estava disposto a ir até ao seminário que ele frequentou, alguns dos anos mais importantes da formação da sua vida. Alertou que eu poderia não gostar, afinal de contas eu era muito jovem e a “malta” da minha geração não tinha muita paciência para seminários e igrejas. Mas era inevitável não estar impressionado com a proposta.
A viajem tomou-se pelo interior, passando pela Guarda. Era fim de verão. A luz era entrelaçada pela vegetação densa. Eram tempos de mato selvagem. Cor laranja garrida pelo céu que fazia lanterna pela vegetação esverdeada. Havia uma estrada que nos levou por entre carvalhos antigos, as suas copas circundavam um teto na estrada e a luz do sol entrava a fazer focos de tons laranja e vermelhos no chão, pelas ramos e folhas. Aldeias de pedra místicas, com algumas pessoas idosas pelo caminho, a serra, com pedras e casas ao fundo abandonadas. Tempos onde se sentia a aldeia, a quietude e onde tudo é ancestralmente misterioso.
No sopro da viajem o meu pai iniciou a sua história. Saiu de casa dos pais, porque os meus avos pretendiam que ele fosse padre. Foi “aterrar” num dia de inverno com neve à estação de Fornos de Algodres para começar a sua educação Teóloga. Entretanto parámos no alto da senhora do castelo na localidade de Mangualde para fazer uma pausa. A narrativa era agora ao contrario… “quando fugi do seminário fiquei aqui um dia … aquilo era muito duro. Não era o estudo do francês, ou do latim, ou da historia, era o mau trato, a obediência excessiva que roçava a escravatura, a pancada, a falta de resposta nas perguntas que tínhamos, ou melhor, era sempre Deus a resposta para tudo. Era o deixar a saúde e tudo o resto nas mãos de Deus. Eu gostava do Latim e do Francês”.
Regressámos à estrada e voltámos um pouco atrás. O meu avô, levou o meu pai e deixou-o entregue ao responsável pelo seminário na estação de comboios. Todos os dias levantavam-se às 6:00horas. Faziam uma hora de oração em jejum. Depois tomavam o pequeno almoço e esperava-lhes trabalho no campo até às 10horas. Regressavam para mais oração, Latim, Francês e História. Mais oração. Almoço e missa. À tarde trabalhos de alvenaria e carpintaria, mais oração, aulas de matemática e Teologia. Oração. Jantar e missa. Recolha às 21horas.
Só no Natal seguinte, passado um ano, regressou a casa para festejar a véspera e o dia de Natal.  A vida no seminário era de força. Quem não cumprisse era praticamente espancado. Quem adoecesse ficava entregue a Deus. “Mas a recompensa foi muito maior. Porque vivi um tempo único em tudo. No afeto, na vida, no cheiro, no sentir a terra até na sua temperatura, em dar valor a tudo e acima de tudo à vida”.
Chegámos a Fornos de Algodres. Entrámos de carro pelo parque do seminário e estacionámos. Foi aqui que vi o meu pai com nunca o tinha vista. A recordar pormenores. “No meu tempo fizemos esta fonte”. Fomos às traseiras do seminário. Ele ansiava pela vista. E que vista! Era o sopé da serra da estrela. Quilómetros e quilómetros de planície até à elevação a perder de vista ao fundo, por um nevoeiro de verão. A luz batia nas pedras. As pequenas casas dispersas em pedra. A quietude, o sossego no horizonte, nada para além da contemplação. O tempo parado. Estático. O meu pai estava a reviver, a sentir novamente o que sentiu na sua juventude. Impossível de sentir em outro local.
Por esta altura o seminário ainda funcionava. Deixaram-nos até entrar. Fotografar. Uma freira até chegou a falar connosco e fazer-nos uma visita guiada. Eu fiquei fascinado com a sala de aulas e com a biblioteca. O meu pai lembrava-se do lugar onde se sentava, cheiro a papel e madeira por entre os milhares de livros nas estantes.
No regresso a historia da fuga. “Eu tive de sair dali, onde aprendi coisas muito importantes”. Eu não queria ser padre. Não tinha vocação. Não queria levar pancada e viver infeliz. Mas aprendi cultura, sentimentos.”. E ainda bem Pai que fugiste porque eu cá estou. “E fugi um dia à noite com um amigo meu. Estávamos fartos de levar. Ele estava doente e nem médico chamavam. Pediam para rezarmos por ele. Se fossemos apanhados o reitor provavelmente encher-nos-ia de porrada até nos deixar à beira da morte. Saímos pela janela do quarto por um lençol do qual fizemos uma corda. E corremos duas horas a pé até à estação de comboios de Foros de Algodres. Ali esperámos pelo comboio que passava pela estação às 22horas. Um regional que nos levava até Mangualde. Fomos. Chegados a Mangualde dormimos a noite numa pensão. Pela manhã e já sem dinheiro decidimos ir até casa a pé e à boleia em carroças. Cheguei a casa dois dias depois. Disse aos teus avós, façam o que quiserem comigo, mas eu não volto. E não quero ser padre. Passados mais dois dias o reitor apareceu na casa dos teus avos. Dizia que eu lhe pertencia, a ele e a Deus. E não poderia ter dito pior. O teu avô disse não, ele não lhe pertence, pertence a Deus e aos seus Pais.”
Chegámos ao restaurante onde queríamos jantar. Na Quinta de Cabriz. Jantámos os dois sozinhos no restaurante. Guardo estes momentos para sempre. Não porque não tenha vivido outros com o meu pai, mas porque naquela altura soube que queria ser pai. Uma viagem simples, humilde, onde de repente um jovem turbulento do “grunge” muda a sua visão sobre a importância crucial de ser um verdadeiro pai para um filho. 

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